Apenas apoiou a CoreWeave e agora vai investir na Firmus — Nvidia se transforma no "Banco Central da IA"
Após apoiar publicamente a CoreWeave, o que resultou em uma queda de 11,9% nas ações, a Nvidia planeja investir centenas de milhões de dólares na Firmus Grid, uma provedora australiana de serviços de nuvem de IA que não conseguiu realizar seu IPO. A Nvidia está intervindo cada vez mais na crise de financiamento da infraestrutura de IA de maneira similar a um banco central. A lógica é direta: a cada dólar investido por Jensen Huang, os clientes podem adquirir mais chips da própria empresa. Atualmente, o neocloud é uma linha de defesa crucial da Nvidia contra o desenvolvimento de chips próprios pelas gigantes de tecnologia.
A Nvidia está intervindo na crise de financiamento da infraestrutura de IA de forma cada vez mais semelhante à de um banco central.
Após declarações orais em apoio à sua importante participada CoreWeave não conseguirem estabilizar o mercado, a gigante dos chips estaria planejando injetar centenas de milhões de dólares em outra provedora australiana de serviços em nuvem de IA em dificuldades, a Firmus Grid.
Segundo reportagem do The Information desta terça-feira, a Nvidia está em negociações com a Firmus para um investimento de centenas de milhões de dólares. Após o fracasso do plano de IPO da Firmus no início do mês, estimado em US$ 30 bilhões, a empresa está buscando arrecadar ao menos US$ 2 bilhões via financiamento privado. A Nvidia já participou das últimas três rodadas de captação e é um dos principais acionistas da empresa.
Esse potencial novo aporte é o mais recente movimento da Nvidia para sinalizar ao mercado — em meio a uma forte liquidação de ações de IA, a empresa mostra-se disposta a sustentar todo o ecossistema com capital real, não apenas palavras. O ambiente de financiamento para operadoras de data centers de IA está deteriorando-se rapidamente e a confiança dos investidores do mercado aberto segue abalada. Resta saber se os aportes estratégicos da Nvidia podem realmente reverter a tendência negativa, o que segue como principal ponto de atenção do mercado.
A falha no IPO da Firmus e a entrada da Nvidia
A tentativa de abertura de capital da Firmus fracassou, tornando-se um dos estopins para a atual onda de liquidação das ações de IA.
Fundada há sete anos na Austrália, a empresa planejava abrir capital na Australian Securities Exchange avaliada em US$ 30 bilhões, buscando captar US$ 5 bilhões, mas retirou a proposta alegando “volatilidade de mercado”. Conforme reportado, investidores avaliaram o valuation como excessivo e especulativo, muito distante da atual receita da Firmus e da capacidade de data centers planejada.
Entre os principais investidores da Firmus estão Blackstone, Coatue Management e Jane Street. Em termos de estrutura, a empresa já captou mais de US$ 13 bilhões até o momento, dos quais cerca de US$ 10 bilhões em dívida. Sob o programa de apoio à crédito da Nvidia, as duas estão fortemente atreladas — em junho deste ano, a Nvidia concordou em dar garantias para que a Firmus compre pelo menos 170 mil racks de servidores GPU Rubin e Blackwell, facilitando assim o acesso da Firmus ao crédito. Esses racks, avaliados em cerca de US$ 15 bilhões, serão instalados em uma instalação construída pela desenvolvedora de data centers de Singapura, DayOne, na ilha de Batam, Indonésia.
Após o fracasso do IPO, a Firmus busca ao menos US$ 2 bilhões via captação privada. Segundo fontes do The Information, a Nvidia já estava preparada para aportar capital relevante na oferta pública e, na rodada privada, seu investimento ainda pode ser ajustado, sem descartar a possibilidade de a operação não se concretizar.
Lógica da Nvidia: cada dólar investido é para si mesma
A injeção contínua de recursos da Nvidia nas chamadas novas provedoras de nuvem (neocloud) tem uma lógica de negócios clara.
Google, Microsoft, Amazon e outras gigantes da nuvem aceleram o desenvolvimento de chips próprios para reduzir a dependência da Nvidia, enquanto as neocloud se tornam pilar essencial da demanda pelos GPUs da companhia. A lógica de aportar mais capital na Firmus é direta: para cada dólar investido por Jensen Huang, mais um chip pode ser vendido ao cliente.
Segundo análise do The Information, a Nvidia já forneceu mais de US$ 170 bilhões em garantias e suporte de capital para neoclouds e outros grandes clientes. Até julho deste ano, as posições da Nvidia em títulos de empresas privadas não listadas — principalmente participações acionárias — atingiram US$ 51,2 bilhões, mais que o dobro de seis meses atrás.
Para sustentar esse ecossistema, a Nvidia também vem ajustando sua abordagem de suporte. Segundo executivos, inicialmente a empresa exigia participação futura na receita em troca do apoio ao crédito às neoclouds, termo não aceito por algumas das maiores. Agora, a Nvidia oferece garantias de crédito de prazo mais curto, em troca de participação menor na receita. Além disso, a Nvidia montou uma equipe interna liderada em parte por Nico Caprez, genro de Jensen Huang, para ajudar as neoclouds a encontrar locais de data centers com energia disponível.
O alerta da CoreWeave: palavras não convencem o mercado
A situação da Firmus não é isolada; todo o setor de neocloud enfrenta a combinação da disparada do custo de financiamento e do colapso da confiança dos investidores, e o apoio verbal da Nvidia mostrou ser insuficiente.
Na semana passada, Jensen Huang defendeu publicamente a CoreWeave em evento em Estocolmo, dizendo que o “custo de capital está, na verdade, caindo”. O mercado não acreditou: as ações da CoreWeave caíram 11,9% no dia seguinte. Na prática, os custos de endividamento da CoreWeave caminham na direção oposta ao discurso de Huang: as taxas de financiamento de projetos garantidas por chips e contratos de clientes subiram de 225 pontos-base acima da taxa de referência em março para 550 pontos-base em agosto; nos títulos sem garantia, o rendimento do bond com vencimento em 2032 é de cerca de 14%, contra 8,5% há apenas quatro meses.
O caso da operadora australiana Nextdc serve de novo alerta: nesta quarta-feira, opositores públicos forçaram o adiamento de um projeto e a revisão para baixo das expectativas de lucro, derrubando as ações em 41%. No mês anterior, a Nextdc havia emitido A$ 1,1 bilhão em convertíveis com cupom de apenas 1,75%, mas o preço das ações já caiu para cerca de um terço do valor de conversão, tornando tais títulos profundamente fora do dinheiro.
Diante dos questionamentos persistentes do mercado, Jensen Huang disse anteriormente a investidores que “tudo isso vai passar” e recomendou “aproveitar para comprar na baixa”. Agora, a Nvidia está sendo chamada a agir para cumprir essa promessa. Para uma empresa que está sendo chamada de “banco central da IA” pelo mercado, investir na Firmus pode ser só mais um passo no papel de “emprestador de última instância”, mas se conseguirá restaurar de fato a confiança do mercado, ainda resta ser visto.
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